10/02/2009 - A leitura do Censo da Educação Superior, recentemente divulgado pelo Ministério da Educação (MEC), mostra um retrato em branco e preto (na verdade, quase que só preto) do estado da arte da educação nacional. Ela nunca foi risonha, mas, como os números não mentem, ano a ano assiste-se ao inevitável agravamento da situação. Como se já não bastassem o uso e o abuso do catastrófico sistema de progressão do aluno, sem avaliação de aprendizagem, dentro dos ciclos do ensino básico (e que, não raro, converteu-se em promoção automática, tenha ou não o estudante competência para ser promovido), crescem de importância fatores que provocam deficiências observadas nos resultados do ensino formal, tanto no que se refere à insuficiência numérica dos professores, quanto no que diz respeito às impropriedades de sua formação universitária. Vou me limitar a tecer alguns comentários sobre a questão docente, naquilo que pude captar da leitura dos dados relativos às licenciaturas.
A primeira constatação é um paradoxo crescente: enquanto a matrícula aumenta nos graus básicos de escolaridade, a capacitação de docentes pelas faculdades diminui seguidamente. Em 2007, o número de licenciados diplomados caiu, em relação a 2005, quase 10% (-9,3%). Os cursos mais atingidos foram: letras, geografia, química e filosofia - como se sabe, áreas nas quais não se improvisam docentes.
E, por falar em filosofia, aprovou-se lei (como só acontece no Brasil) sem qualquer prudência ou planejamento. A matéria passa a ser obrigatória a partir da sanção, sem que se abra prazo para estimular a formação dos professores requeridos pela nova situação. Consequência: lançar mão de gente sem adequada formação para ministrar as aulas, voltando-se assim ao tempo dos leigos, além de colocar em risco a própria razão de ser da disciplina no currículo escolar. Mas, filosofia não é importante? Claro que é. Não só importante, como essencial, mas sem improvisações, que acabarão por anular as boas intenções que inspiraram a sua presença obrigatória nos cursos.
Aliás, a distorção, que leva a aproveitar gente inadequada para o desempenho das funções docentes em numerosas disciplinas, cresce continuamente e, hoje, são 600 mil leigos, sem nenhuma licenciatura ou com licenciatura, mas atuando em matérias diversas daquelas para as quais se diplomaram, a fazer de conta que ensinam, enquanto os alunos, por sua vez, fazem de conta que aprendem.
A par da insuficiência estatística do número de profissionais requeridos pelas escolas básicas e devidamente diplomados pelo ensino superior, ainda haveria que discutir (o que, aliás, tenho feito com frequência em artigos já publicados; alguns deles, aliás, lidos mas não entendidos por um ou outro professor, que se ofenderam quando me referi à falta de sucesso da categoria na arte de ensinar) a questão das licenciaturas, ante as exigências da educação moderna. Mas deixarei esse tópico para futuras manifestações.
Outro ponto de interesse para o enfoque inspirado pelo censo escolar é o que diz respeito ao mercado de trabalho do magistério. Será inútil, a meu ver, providenciar mudanças apenas pedagógicas e administrativas na reorganização das licenciaturas, inclusive oferecendo incentivos de bolsas de estudo aos alunos. Isso porque a verdadeira causa do desinteresse pela carreira docente é devida, de um lado, aos míseros salários pagos aos mestres, e de outro, ao desprestígio social da profissão. Os governos fogem do tema, porque a educação não é prioridade nas políticas sociais e a sociedade brasileira ainda não amadureceu o suficiente para exigir educação de qualidade para as novas gerações (em recente pesquisa difundida pela mídia, a educação era a sétima prioridade entre as dez elencadas). Enquanto não forem resolvidos os impasses da remuneração aceitável e do respeito devido à função docente, as licenciaturas irão perdendo espaço nas faculdades, e o mercado de trabalho jamais conse guirá oferecer interesse maior pelo exercício da profissão. É esperar o censo escolar de 2010 para comprovar o que aqui se afirma.
kicker: Enquanto se resolverem os impasses do respeito e da remuneração à função docente, as licenciaturas irão perdendo espaço |